E agora, serão os outros?

Roubo uma estrofe do poeta e ouso completar com a ironia de nossos tempos confusos. “Não é bastante não ser cego para ver…”, diz o inventado Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Olhos não bastam para enxergar a complexidade do momento político e social em que estamos vivendo. É preciso muito mais: ouvir todos os lados, interpretar os fatos, buscar contraditórios sim — porque é preciso não cair em armadilhas fáceis, como as narrativas que parecem tão bem construídas, a ponto de serem verdades absolutas. Ponderação em tempos de violência e ódio é a lupa da qual precisamos para tentar entender este conturbado momento.


Este Brasil dividido nos obriga a falar de política e da construção de um caminho. A prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, líder mais popular do país, considerado culpado no primeiro julgamento a que foi submetido, não é pouca coisa. É preciso digerir, é preciso entender que há tristeza e distopia. Faz parte do jogo político a esquerda tentar fazer prevalecer sua narrativa. Mas, além disso, é preciso saber e ter a plena convicção de que foi feita a justiça. Para isso, é necessário responder a muitas perguntas. A primeira delas é: e os outros, quando vão para o xadrez?

Diante da rapidez com que Lula e todos os réus da Lava-Jato são julgados em primeira e segunda instâncias e, quando condenados, colocados na cadeia, é natural que a maioria da população aprove e aplauda o trabalho da força-tarefa. Mas, e o Supremo Tribunal Federal? Que papel lhe cabe nesse processo? Em quatro anos, a Lava-Jato desvendou o maior esquema de corrupção da história brasileira e sentenciou e pôs na prisão mais de 160 condenados.


No mesmo período, o STF não começou a julgar nenhum dos denunciados da Lava-Jato que estão protegidos pelo foro privilegiado. Privilégio, aliás, que fere frontalmente o artigo 5º da Constituição, que dispõe: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Certamente, muitos bandidos com mandato não estariam hoje disputando a reeleição, mas atrás das grades. Além de soltos, eles se empenham hoje para que o Supremo dê um passo atrás em seu maior acerto: a jurisprudência que acabou com a garantia de impunidade eterna para criminosos ricos e poderosos.

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