David Almeida: A cultura para a economia

Como homem público, vejo que as manifestações culturais, nos seus mais diversos segmentos, devem ser incentivadas e tratadas como política pública de conhecimento e de inclusão

Manaus | AM | David Almeida*

Seu Alberto estava há três meses desempregado naquele ano de 2019, já com renda insuficiente para pagar as contas e comprar os suprimentos da semana para a sua família. Foi quando ele ouviu pela rádio que, em uma avenida de Manaus, seria realizado um grande evento cultural, que reuniria milhares de pessoas. Viu ali uma chance de fazer o que nunca tinha feito antes. Com as últimas poucas notas que tinha, ele comprou alguns refrigerantes e gelo, juntou tudo em um balde e foi até ao evento para vender.

No final daquela grande caminhada, chamada Marcha para Jesus, onde gente de todos os cantos da cidade se reuniu em adoração a Deus, Alberto voltou para a sua casa com o dobro do dinheiro que ele tinha investido na oportunidade daquele dia 1º de junho. Sem saber muito bem o que estava fazendo, o pai de família tinha acabado de entrar na informalidade, lugar da economia em que milhares de amazonenses têm entrado nos últimos anos, em razão do alto nível de redução de vagas de trabalho formal.

Assim como a Marcha para Jesus, onde Alberto encontrou a alternativa ao desemprego, outros tantos eventos culturais de cunho religioso, como o Pentecostes; ou de entretenimento, como os festivais juninos, foram suspensos neste ano por conta dos riscos de contaminação da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). A cidade de Parintins, no final de junho, ficou sem o festival folclórico; e talvez, em setembro, ainda por conta dos riscos, Manacapuru fique sem o Festival de Ciranda; e Itacoatiara sem o seu Festival da Canção (Fecani).

Eventos culturais esses que, independentemente dos seus objetivos, são importantes para a economia das suas populações, seja ela dos grandes empreendimentos que organizam os eventos, geram empregos no setor e pagam tributação ao Estado e ao município; seja ela também dos pequenos negócios formais ou informais, como o que deu ao seu Alberto e a tantos outros cidadãos de bem uma chance de conseguir uma renda para sustentar a família. Por isso eles precisam ser incentivados assim que as autoridades de saúde entenderem que sim.

Quando governador do Amazonas, de maio a outubro de 2017, nós incentivamos os pequenos e os grandes eventos culturais desse período, por entender a importância deles para as tradições, para o resgate social da juventude, para a saúde emocional das pessoas que vivem dias cada vez mais estressantes na atualidade, também pelo ciclo econômico do comércio, dos serviços e do turismo.

Como homem público, vejo que as manifestações culturais, nos seus mais diversos segmentos, devem ser incentivadas e tratadas como política pública de conhecimento e de inclusão. Para a juventude, a cultura deve ser tratada como programas educacional e ocupacional e, para a grande massa, o entretenimento cultural deve ser visto como investimento para movimentação econômica, especialmente dos pequenos negócios.

*Deputado estadual da 15ª a 17ª legislatura, governador do Amazonas em 2017 e presidente estadual do partido Avante no Amazonas

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