Governo Lula contraria regras gramaticais e aplica pronomes neutros em matérias oficiais

A linguagem foi aplicada em uma reportagem sobre parlamentares LGBTQIA+ e recebeu críticas de especialistas e a classe política

MANAUS | AM

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou o uso de pronomes neutros em matérias oficiais da empresa estatal de comunicação, a Agência Brasil. A iniciativa, que vai contra às regras gramaticais, foi aplicada em uma reportagem sobre parlamentares LGBTQIA+ e recebeu críticas de especialistas e a classe política.

A reportagem da estatal foi publicada em 21 de janeiro deste ano e mostra a primeira vez em que parlamentares eleitos se reuniram em Brasília, no 1º Encontro de LGBT+eleites”, realizado nos dias 20 e 21 de janeiro em Brasília.

Para o professor de Língua Portuguesa e redação Silvio Santos, do Sou Concurseiro, o governo petista tem usado a linguagem neutra como uma “forte ferramenta de combate à discriminação de gênero”. Para o especialista, no entanto, esse argumento é incoerente. “Esse argumento, contudo, não passa de uma falácia e imerge no mar da incoerência, visto que não há nenhuma comprovação, ou seja, prova cabal – dentro da estrutura morfofonológica da língua de que haja em seu ínterim algum comportamento discriminatório”, declarou.

Ao Site O PODER, Santos reforçou: “Os defensores acham que a língua é discriminatória, preconceituosa, machista. Portanto, para frear essa ‘discriminação’, criaram a também chamada ‘linguagem não binária’, e começaram a alterar a estrutura da língua portuguesa para se sentirem confortavelmente (incoerentemente) representados”.

O professor cita o uso da fala “bom dia a todos” para homems e mulheres como exemplo de que a Língua Portuguesa não discrimina gêneros.

“Foi a partir desse último caso que surgiu a ideia de que a língua é machista. Contudo, quem desconhece gênero gramatical masculino não percebe que ele não corresponde obrigatoriamente a pessoas do sexo masculino, mas também a um público genérico (ou misto). Daí o gênero gramatical masculino assume também um caráter neutralizador do ponto de vista sexual. Quando se diz ‘O ribeirinho trabalha muito’, estamos falando especificamente que os ribeirinhos do sexo masculino trabalham muito? Não! Estamos inferindo que ‘o ribeirinho e a ribeirinha trabalham muito’”, pontuou.

Prejudicial

Para advogado e cientista político Carlos Barros, o pronome neutro é um mandamento da chamada “religião estatal”, ou seja, quando uma religião é oficialmente defendida pelo Estado. Barros relaciona ainda com o “politicamente correto”, termo que, apesar de defender a censura de narrativas vistas como ofensivas, é considerado como uma ferramenta criada para restringir a liberdade de expressão.

“O politicamente correto é uma religião estatal. O pronome neutro é só um mandamento desta religião”, analisa o advogado. Carlos Barros acrescenta, ainda, que a adoção da linguagem prejudica a comunicação de pessoas com deficiência auditiva ou visual, por exemplo.

“Não há nada de inclusivo, eis que torna difícil a comunicação de surdos, que fazem leitura labial, de cegos, que utilizam leitura por softwares, e os disléxicos, que têm real dificuldade. Não há preocupação com inclusão, é puramente controle ideológico. Se inclusão fosse o objetivo, a preocupação seria com libras”, frisou advogado Carlos Barros.

Movimento ideológico

O deputado federal eleito Fausto Júnior (União Brasil), que defende a utilização da norma culta da Língua Portuguesa, a linguagem neutra (ou não binária) também não é inclusiva por dificultar, justamente, o dialeto de pessoas com deficiência. Para o parlamentar, a linguagem está relacionada a movimentos ideológicos.

“A linguagem neutra ou linguagem não binária está relacionada diretamente a movimentos ideológicos que acreditam que esse dialeto deva ser incluído na grade curricular da língua portuguesa e/ou em documentos oficiais como forma de inclusão social. Entretanto, a linguagem neutra não é inclusiva. Pelo contrário, ela dificulta a compreensão desse dialeto pelos disléxicos, surdos e cegos, por exemplo”, apontou.

Fausto Júnior, autor do projeto de lei que proíbe o uso da linguagem neutra em escolas públicas e particulares do Amazonas e documentos oficiais do Estado, lembra que já existe um projeto tramitando no Congresso Nacional de neutralidade ideológica no governo sobre o assunto e que terá o apoio dele.

“Já existe um projeto tramitando no Congresso Nacional de neutralidade ideológica no governo que veda, por exemplo, o uso da linguagem neutra em documentos e campanhas institucionais, que terá o meu apoio”, afirmou.

A proposta citada pelo deputado amazonense refere-se ao de Kim Kataguiri (União Brasil-SP). O Projeto de Lei 2957/22 foi apresentado na semana passada pelo parlamentar e trata sobre as atividades da administração pública, alcançando os poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública.

De acordo com o texto, a administração pública não pode, entre outras medidas, usar linguagem neutra ou que demonstre posicionamento ideológico, devendo ater-se às regras oficiais da língua portuguesa.

Vigilância

O ativista político e fundador do Movimento Conservador Amazonas, Sérgio Kruke, a adoção de termos que contrariam regras gramaticais, por exemplo, é uma prática comum da esquerda. Para o militante, as atenções devem ser voltadas para a educação das crianças.

“Isso é prática comum da esquerda, querer idiotizar a população. O que peço é que os pais estejam vigilantes com a educação dos seus filhos e não deixem isso afetar o desenvolvimento educacional”, observou.

Sérgio Kruke afirma ainda que, em meio ao emprego da palavra “todes” em eventos oficiais do governo, mesmo ela não fazendo parte da norma-padrão da língua portuguesa, a sensação é de estar diante de um grupo de pessoas dispostas a propagarem o “caos”.

“A sensação é que estamos diante de um grupo de pessoas que querem propagar só o caos, começando pela língua portuguesa. Nossas crianças e jovens mal sabem conjugar verbos, mal sabem regra de três e eles tentam subverter essa geração através de pessoas com cargos de expressão, assim fizeram com a base familiar nos anos 80 e 90 usando cantores e artistas”, lamentou.

Linguagem incoerente

A linguagem neutra nada mais é do que uma proposta de linguagem criada para inclusão de pessoas que não se sentem representadas pelos gêneros masculino e feminino. A tese, contudo, não faz parte da norma-padrão da Língua Portuguesa.

O professor Silvio Santos lembra que ainda que utilizem, o que chamou de insistente imposição , a linguagem neutra, em favor do movimento “inclusivo”, o que impera em provas de vestibulares e concursos é a “coerente, fundamentada e respaldada norma-padrão”. “Na França, o Ministério da Educação proibiu a linguagem neutra nas escolas e em comunicações oficiais, pois sua utilização atrapalha o aprendizado dos alunos e prejudica pessoas com deficiência mental, pois ela viola os ritmos do desenvolvimento da linguagem de acordo com uma injunção brutal, arbitrária e descoordenada”, citou.

“Ora, se a tal linguagem neutra é considerada tão inclusiva e representada, por que eles excluíram as pessoas com deficiência mental? Ah! Eles não pensaram nisso, pois a maioria só pensa neles mesmos e nos seus interesses. É bom que saibam que, onde estiverem, para deturpar o funcionamento da língua, sempre haverá coerentes profissionais para externar quão inconsistente e incoerente é a adoção dessa ferramenta de comunicação ‘inclusiva’, sobretudo na linguagem escritaque – como já percebemos – só inclui quem concorda com eles e excluem muitos necessitados que precisam da língua original e pura não somente para falar, mas também para serem compreendidos, pois compreensão é o que essas pessoas não possuem”, refutou.

Incompreensível

Para a professora Cíntia Chagas, especialista em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o dialeto não binário está sendo implantado nas escolas e faculdades de forma sorrateira. Em entrevista à Jovem Pan, em novembro de 2021, Chagas diz que a linguagem é incompreensível.

“Estão implantando o dialeto não binário de forma sorrateira como quem não quer nada por meio de, por exemplo, ‘querides alunes’. O interessante é que é impossível escrever um parágrafo minimamente compreensível nesse dialeto. […]A gente exclui os cegos, os surdos e os disléxicos. Defender, por exemplo, o ensino de libras ou compreensão em relação ao autismo ninguém faz, porque não lacra”, argumentou.

Já a professora de língua portuguesa Kátia Simone Benedetti afirmou, em Gazeta do Povo, que a imposição do uso do gênero neutro é duplamente negativa.

“Em primeiro lugar, do ponto de vista da linguagem em si, é uma empreitada fadada ao fracasso, pelo menos em curto e médio prazo, uma vez que a língua tem seus próprios mecanismos de mudança e estes não incluem mudanças impositivas, artificiais e incoerentes com a sua estrutura gramatical. Vale dizer que a imposição do uso do gênero neutro numa língua cuja gramática possui marcação binária de gênero, como o português, é incoerente”, pontuou.

Kátia Benedetti continua: “Em segundo lugar, do ponto de vista do seu objetivo social, essa imposição na linguagem como estratégia de combate a preconceitos e discriminações é inútil, pois preconceito e discriminação não são inerentes às características gramaticais de uma língua natural, mas expressam características comportamentais de nossa espécie, manifestas por meio de sistemas de crenças e valores, e concretizadas por falhas dos sistemas jurídico e penal”.

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